Mauro Faccioni Filho

 

HELENOS

© 1998, by Mauro Faccioni Filho

Capa
Fábio Brüggemann
sobre o desenho Sketch of the exterior
of the Colonia Güell Church, (1898)
de Antonio Gaudi

Editoração eletrônica
Sérgio C. Santos

Projeto gráfico
Letras Contemporâneas

Editores
Fábio Brüggemann
Péricles Prade


ISBN: 85-85775-31-9


ARTE POÉTICA

Jorge Luis Borges
(Trad. Mauro Faccioni Filho)


Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar e que a morte
Que nossa carne teme é esta morte
De cada noite, que se chama sonho.

Ver no dia ou no ano um símbolo
Dos dias do homem e de seus anos,
Converter o ultraje dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, no ocaso
Um triste ouro, tal é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes na tarde uma face
Nos olha desde o fundo de um espelho;
A arte deve ser como este espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é esta Ítaca
De verde eternidade, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

 

 

HELENOS


AREÍLICO É MORTO PELO FILHO DE MENETES

Areílico é morto pelo filho de Menetes
com a longa haste de bronze cravada na coxa
Menelau percebe o peito nu de Toante
aí o fere cobrindo seus olhos de treva
Ânflico mata Filido destroçando seus ossos
Nestórida derruba Antímnio, que irrita o irmão
e este, Máris, é morto também pela mesma lança
Peneleu, num golpe, de Lico tira a cabeça
Cleóbulo baixou os olhos frente a Ajax
Piracme cai na poeira fixo à lança de Pátroclo
Meríones atinge Acamante com a espada no ombro

Abre-se o fosso no caminho do Hades
um a um os heróis se retiram às sombras
onde não tardarão a encontrar a nova luta
no primoroso verso de um poeta brônzeo

 

 

 

AMANHECE JUNTO AOS RUMORES DOS PÁSSAROS

amanhece junto aos rumores dos pássaros
o campo aberto está à espera dos filhos
prendo às pernas minha sandália de couro
com o elmo de bronze expondo seu brilho

última olhada a este espelho turvo
lâmina fria em um lago escuro
preparo punhal espada e escudo
expectativa das dores de um golpe duro

ouvi no sonho a voz da justiça
mas ela não tinha mãos corpo ou face
talvez fosse meu medo pedindo socorro
alimentando de vida o que só é disfarce

meus irmãos chamam, e vamos juntos
aos que sobrarem da luta, cobrir de glória
aos outros, descer aos campos do Hades
que a tudo engole e aos sonhos devora

 

 

 

TRÊS CAVALEIROS VIAJAM EM UM CAMPO DE AREIA E PEDRA

três cavaleiros viajam em um campo de areia e pedra
em direção à tenda de Aquiles pedir-lhe favores
dentro da noite sobre os cavalos não se falam
é a ânsia da chegada, a surpresa e os temores

à tarde canta Aquiles intrigante música
mergulhado em si próprio e na escura dor
ver que o herói é sempre só é uma estátua
o bronze é sua roupa o sangue seu amor

desfeita a carne sobre o fogo do banquete
bebem os cavaleiros um vinho doce no silêncio
composto aos poucos pelos galos montanheses
e a densa nuvem da fumaça dos incensos

" - estende tua mão e tua bravura sobre o povo
mostra ao destino que teu desejo é tua espada"
" - guerreiros valorosos, minha resposta é não
o limite desta tenda é minha glória conquistada

o navio negro exposto ao frio e ao bravo mar
é meu retiro e junto a Pátroclo farei reino
combinando esquecimento e ardor, fracasso e luta
na insegura espera do prazer que nunca tenho"

 

 

 

AMO SOBRETUDO AS BATALHAS


amo sobretudo as batalhas
seus longos preparativos
e a chance de olhar nos olhos
um inimigo que é amigo

contemplar o vermelho da tarde
abraçado aos desfalecidos
contar entre nós os que sobraram
honrar em lágrimas os desaparecidos

amo sobretudo esta rotina
fazer dia a dia o que é devido
no campo entre homens valorosos
brigar e sofrer sem um grito

longe das mulheres e das intrigas
longe do amor do corpo e do seu ritmo
afiando facas, carregando pedras
entre homens desfiamos nosso íntimo

amo sobretudo a disciplina
a construir este muro infinito
dentro estamos a sós e no silêncio
marchando firmes num labirinto

 

 

 

OS PRIMEIROS VAPORES DA MANHÃ ESTENDEM-SE NA BAÍA

Os primeiros vapores da manhã estendem-se na baía
longe os primeiros pios, devagar se contorce a água
em crespas ondas de um profundo mito atrás.

Aqueles que me contaram, e os que contaram a eles
uns sobre os outros em sucessivos gestos rituais
a história deste fogo, também minha e também sua.

Preso em sua própria tenda, leves panos estendidos
armações rústicas e frágeis sobre o exército
este guerreiro persegue os sinais de sua luta.

Rede tecida no contorcer das decisões e palavras
pouco a pouco, apesar do empenho em desfazer
cada gole amargo e cada curva estranha.

Armam-se os escudos, brilham as espadas matinais
protetores de couro, detalhes de bronze sobre os olhos
não há lágrimas, a festa é feita de louvor

A romper esta espera feita no silêncio
abatem-se os primeiros combatentes gloriosos
deixando atrás o nome a ser escrito em ouro

Horas, sol de inverno, rolam as cabeças
olhos nos olhos, corpo a corpo, sangue
leio em mais um dia o retorno eterno.

A esperança da vitória, fé no inalcançável
buscando no braço forte que levanta o golpe
um dia esquecido onde isto está escrito

Tarde, os que voltam abraçados se recomporão
novas tiras de couro, está aceso o fogo
músculos e olhos cansados se aconchegam

Este guerreiro tenso porém não findou o dia
e a cela à qual está preso não fraquejou
tendo se armado como um monstro surdo

Vindo do tempo vazio, pêndulo na escuridão
não há resposta, porém pergunta, guerreiro doce
os pêlos do braço voejam na brisa triste

Claro como os exaustos companheiros adormecidos
estende-se o passar das horas sobre eles
cantam pelo campo os insetos passageiros

Venham a ouvir este canto incerto
foi inscrito em tua fronte de guerreiro
que em ti se cantarão os dias da glória

Bem como os do começo da pergunta
os dias do amor e da música
também os do pêndulo, da dor e do escuro.

 

 

 

PRIMEIRO VIERAM E ARRANCARAM SUA CASA

primeiro vieram e arrancaram sua casa
depois impuseram o dia sobre o dia
fizeram com que a paz fosse sonho
que o fato novo da manhã um amargo

lançaram sobre ele o fogo e o ferro
também o desprezo do inimigo no campo
os sons da noite o sino badalando
o vão o fútil o só e o volúvel

desde seu ponto perdido na terra
procurou o que explica o sentido da luta
seu gesto inglório e a esperança inútil
a razão de si em seu momento de luto

ajoelhado frente ao deus dos homens
pediu e suplicou e acreditou na fé
que do nada se reerguesse sua casa
e que seu nome se transformasse em pó

 

 

 

PRECISA DE ALGUÉM QUE O PROTEJA UM POUCO

precisa de alguém que o proteja um pouco
após um dia inteiro com a espada tensa
voando sobre escudos manchados de sangue
como o seu; feridas, cortes e esta tinta
escrevendo a história que após apagará

precisa de alguém dizendo ao final do dia
onde está a paz e que paz será esta
que a tudo cobrirá com seu manto quente
ofertando aos vivos o pão e o copo de vinho
esquecendo a dor, a luta e os que foram

alguém que o proteja com o pesado braço
em que possa confiar o sono e os músculos
sentindo neste encontro o toque e a carne
traçando neste recuo a impressão do sempre
que a aurora em luta já fará do breve

 

 

 

O HERÓI DESTROÇADO E VENCIDO

o herói destroçado e vencido
estende a mão para o céu
qual caminho se apresenta?
que rígido destino se aplaca?

o inferno prometido é um fato
é o incansável dia a dia
estenderá agora a mão como escravo
a súplica seca ao que venceu

dará seu corpo para o suplício
e os olhos baixos para o pó
o herói cansado já é anônimo
e o passo fraco de quem sumiu

 

 

 

OLHEI PARA AS ESTRELAS


tenho medo, tanto medo, olhei para as estrelas
a luz viaja pelo espaço sem um só pensamento
pequenos ruídos do mar, suas profundezas
logo virá a aurora com seus róseos dedos

virá para repartir o tempo em gomos
nossa histeria, ou risos, ou pequenas alegrias
quero ver para trás e para trás não olhar
a memória mais curta é também mais leve

que venham as ondas apagar imagens
desenhos turvos, a expressão incompleta
que passe o amanhã e passe o depois também
passem os nomes com o vento do deserto

 

 

 

FELIPE DA MACEDÔNIA


o sapato errado no pé errado
mesmo assim piso este chão
cama e honra para meu filho
minha mulher com cobras no pescoço
traçando círculos e orações
a deuses de incenso e pouca luz
trêmula sobre os seus mitos
que nascem e morrem como erva
ama o corpo e a ele aspira

o sapato errado no pé errado
mesmo assim piso este chão
empunhando a lança toda manhã
em cada face vejo este filho
e mesmo onde o sangue derrama
um olhar de súplica meus olhos encontra
destaco em meio ao campo as luzes
brilhando sobre as cabeças como um manto
que abafa nossos gritos e dores
e todo errado vou seguindo
por este trajeto inexistente
que me traz a mim e a nada
calçando ainda para meu filho
este sapato errado, mas que é meu
neste campo de batalhas entre fantasmas
como eu

 

 

 

QUANDO OS GUERREIROS DÃO-SE TRÉGUA

gloriosos guerreiros que interrompem a luta
em favor dos jogos cíclicos de Olímpia
untando a pele, cachos no cabelo
a honra agora é a do mais veloz

nada de sangue, nada de lágrimas
o que é dor e guerra pode esperar
a poderosa lança é a mais distante
cujo alvo livre é o coração do sol

fim da tarde, músculos exaustos
entre abraços na pista caminham
quando o trágico anuncia a morte
do velho poeta de olhos bovinos

aquele que viu no relance a vida
junto ao campo de pedras e olivas
e os atletas silentes recolhem o fogo
nus como estavam, e nus ficaram

 

 

 

CANÇÃO PARA OS HOMENS DE AQUILES


Minha homenagem aos que pegaram em armas
a pele um leve escudo ao amor e à força

Minha homenagem aos que tomaram o gole
a língua a divisa grossa do álcool ao pão

Aos que derrubaram a porta da floresta escura
e caminhando sós alcançaram a luz da aurora

Minha homenagem aos que honraram os pais
transformando seus jovens músculos em aço

Aos que atravessaram a longa noite dolorida
e na manhã souberam unir as mãos da prece

Aos que, vendo o inimigo forte, honraram
a este inimigo e juntos se emocionaram

Aos que olharam o passado e descobriram
que ele é a floresta escura e silenciosa

Minha homenagem aos que, tendo em mãos a espada
souberam dar brilho aos olhos e à palavra

Ao que cantou a canção da sua infância
quando viu o filho do seu filho nascer

Minha homenagem ao que, expirando na batalha,
desejou pela última vez o íntimo encontro

da imagem perdida numa cidade perdida
sua própria sombra em uma tarde lenta












HELENAS


A BELEZA SURGIU ESTA TARDE


a beleza surgiu esta tarde
carregada em leves seios
tão leves que flutuavam
puros seios de Mnasidika
todo corpo é um Corpo
completo na superfície
essência duração contorno
passagens de Mnasidika
há tantos anos foi
traçando seios no ar
não se toca não se beija
etérea Mnasidika
tudo o que arrepia
tudo o que machuca
pontudos leves duros
puros seios Mnasidika

 

 

 

ESTOU LONGE

estou longe desta terra pedregosa e úmida
que o poeta de olhos verdes e lúcidos
cantou e estendeu sobre a história secreta
dispersa entre momentos duros e frágeis

surgiu Assilikis por uma porta inesperada
carregada em leves tecidos de algodão
vinda com a brisa jovem e clareada
súbita e em seu tempo vívida

aos gestos, que não há aulas ou lições,
aos toques da manhã, palavra macia
às pequenas consoantes entremeadas no som
de um sim, a nossa reverência

pois esta cerimônia conclusa do encontro
com seu vagar, sua medição rígida
seu querer embutido e inseguro
será a sina, também o fim, também

Assilikis dividida em todos os olhares
o gosto da pele, o sentido de si
detalhes das mãos e pés, com sua espada
rasga do amigo sua pedra reclusa

 

 

 

ASSILIKIS EM UMA TARDE DE DOMINGO


Assilikis em uma tarde de domingo
pedras, pó, o vento vindo do sul
longe o monte dos deuses eternos

Assilikis é a pele do leve dourado
sabe que os deuses não nasceram
que os deuses não morrerão

O vento passa hoje, amanhã, depois
o mar nas pedras, silêncio
nem a voz do poeta fica

Corre a tarde por esta porta
Assilikis vê que após o amor
há um rio, e não há nome

Flores esparsas na janela
banhos de óleo e perfume
palavras belas para cantar

Lá vêm os jovens atletas
mãos tensas, olhos úmidos
Assilikis os saberá devastar

 

 

 

ASSILIKIS CERCADA DE ATLETAS


a jovem deitada nas almofadas
"cercada pelo enxame de jovens atletas"
veio a rir com os braços soltos

eles a beliscá-la de leve e loucos
anoitece e o silêncio é longo
veneráveis oliveiras e uvas doces

nua e a contemplar seus músculos
baixou os olhos para o sexo dos campos
os pêlos eretos e o vento fresco

eles gastaram a noite devastando
aquele corpo de almofadas e sombras
nu como o seixo do rio que passa

deuses debruçaram-se na montanha
a ver a beleza e a rede de sedução
desta jovem e seu enxame de amores

oxalá os primeiros ventos da manhã
tragam ao grupo de amantes um leve sono
e o delicado gosto de uma luz serena

 

 

 

ASSILIKIS TROCA BILHETES COM SEU FUTURO AMANTE
I

Assilikis troca bilhetes com seu futuro amante
palavras de amor, promessas a realizar

Lá está em sua casa, óleos perfumados
estende-se nas almofadas vagarosamente
é uma longa tarde para aguardar

Cantem pássaros, cantem folhas ao vento
é meu desesperado amor quem vai chegar

Nua me debruço sobre a porta
aberta ao penhasco e ao mar abaixo

Serão seus dedos sustentando os músculos
escalando o mármore, degrau a degrau
aos poucos os pés e o tornozelo frio
é meu corpo esse templo branco
coluna tensa, penhasco ávido

Espalho alvos tecidos pela casa
janelas abertas, os seios rígidos
já finda a tarde e a espera ainda

Pequeno gavião da noite
que voa carregando a cobra
ele não vem, não vem
Afrodite me roubou


II

Assilikis penetra a noite, olhos úmidos
terrível espera de uma promessa nula

Onde estão as bacantes, festejemos a noite
trazei-me o excesso, eu quero passar

Um, dois, dez homens a levar-me
um banho de vinho e rochas para deitar

Quero a dor, mãos secas a erigir
meu corpo para as estrelas
olhos brilhantes do céu, estou aqui
avancem pequenas espadas
a dilacerar a pele fresca do amor

Atravessei a noite em revolta
glórias às deusas do amor
e glória maior ao senhor do tempo

Arrumo as mechas, mergulho no frio
empunho os batidos seios para a aurora
ao lado do amor há o vento da morte
cantarei um poema, só desejo dormir.

 

 

 

HERA UNTOU-SE COM ÓLEOS DE AROMA


Hera untou-se com óleos de aroma
após banho quente num bacio de pedra
juntou os cabelos em maços e goma
desfiando cada cacho num espelho curvo
que separa a imagem e depois a soma

os pêlos da coxa do braço do ventre
empinou-os ao vento num gesto limpo
deixando os torpes músculos para sempre
a engolir fogo e toques desta mão nua
que é mesmo a sua sumindo entre

exposta a Zeus consumiu-o em si
enrodilhados em nuvem de ouro e pó
em seus braços e pernas ele preso ali
sonhando com um mundo eterno e nu
onde o tempo é agora e o lugar aqui

Hera fez de seu deus um homem
com o que lhe há de triste e só
o dia da angústia, o tempo, seu nome
e também o júbilo de um instante único
carne bruta sangue fervor e fome

 

 

 

PAGARIA A HERA QUANTO FOSSE NECESSÁRIO


pagaria a Hera quanto fosse necessário
os ossos estalando entre as mãos frias
talos verdes entre arcos de flores
exibindo tudo no seu halo quente

rodeios de lábios, a luz azul
contorcendo selvagem o braço nu
trazendo do peito o rouco som
que mente límpido e mente a dor

vagas de calor, pobre sentimento
rasgando as carnes por um alto valor
que alinha dias e noites no caminho
de um sólido e seco labirinto

sereno como Zeus nu e frágil
vendo desfazer-se entre as peles claras
as linhas de suor e de esperança
curtas, severas, que pagamos, mesmo caras

 

 

 

TAMBÉM TENHO AMOR PARA VENDER


também tenho amor para vender
estendidos na cama os longos olhos azuis
músculos soltos, lábios para amortecer
aceito tudo, e que venha com furor
arma gélida, lança que amortalha
erigindo aqui mais um vaso do amor
vendo o que tenho, menos o disfarce
qual a estátua desta loba mítica
que lhe mamam os peitos e talham a face
hoje é mais um dia perdido no tempo
por isto cale estas mãos da morte
sugando minha carne num golpe lento
dirão de mim os melancólicos amantes
"foi ela do amor a benigna sombra
que sob a noite nos envolveu num manto
devolvendo a força, coragem e esperança
que perdemos, dia a dia, ao vento
velho animal que da vida cansa"
nesta cama, entre cortinas e almofadas
ouvimos a música da juventude distante
dançando aos beijos e as mãos dadas
farei rir mais um riso forçado
com a pele flácida, busto caído
empinando as coxas de renda bordada
também tenho amor para vender
a qualquer hora que desçam os silêncios
e que haja uma bela dor para amortecer

 

 

 

VENDO O MELHOR QUE TENHO


vendo o melhor que tenho
todos os dias, como o sol
arrancando do escuro este lampejo

então por que me sinto só?
neste mar de braços e pernas
rodas do mundo num pouco de carne

vendo o melhor, e nunca darei
objetos desta vitrine viva
que ao leve toque renunciarei

vendo barato, é quase nada
poucas palavras, poucos gestos
que ao vento da manhã serão passado

vendo mesmo estas lembranças
das músicas da juventude
densos doces que já comi

vendo na madrugada sem ver valor
com a fúria de mais um fim
e com a suave dor de mais um sim

 

 

 

MESMO COM A BOCA CHEIA


mesmo com a boca cheia
a não poder falar
ajoelhada sobre a relva úmida
sinto-me no céu

mesmo com o rosto sobre as pedras
cem quilos sobre as costas
alimentando de sangue a rocha nua
sinto-me no céu

tendo a lua como única coberta
respingos nos cabelos, nos lábios
e cinco moedas prateadas
estou a voar, mesmo deitada

abraçada por dois, ou mesmo três
cercada pelos suores da noite
estenderemos os gemidos e mordidas
até que rasgue a madrugada

esperando à beira do caminho
um guerreiro exausto e dolorido
por muito pouco sacio a fome
entrego tudo e sempre rindo

mesmo surrada como um trapo
esparramada nas moitas desta estrada
chegando o sol a queimar feridas
rio das dores que vou beijando

e quando chegarem as lembranças
e quando vierem os sonhos
saberei desfiar o meu rosário
chamando um homem para amá-lo

arrancarei todos os cabelos
gozando aos uivos e às bofetadas
e me jogarei sobre meus restos
e mais cinco moedas prateadas

 

 

 

DEITE-SE NA CAMA


deite-se na cama
estendendo os braços
farei a personagem que ninguém atura
formando um laço de vozes
que é a pura dor de minha criatura

animal rítmico
olhos na velocidade
gasto meus dedos no desejo da enormidade
como um balão d'água
uma flor submersa
rasgarei sua pele
sem trazer amor à realidade

desafiarei todos os músculos
o bom senso
a gravidade
convidando para estes loucos cabelos
uns poucos golpes de vento
amarelados pela idade

baterei como um louca
uma selvagem vinda da fábula
serpentes pelo pescoço
sendo secreta nestes seus olhos
sugando deste ínfimo calor
um grau a mais de majestade












DOS CAMINHOS DO HADES


SAÚDO AO VELHO POETA SULISTA


saúdo ao velho poeta sulista
que teve num sonho uma fera
viveu só até o fim da vida
sem apreender o salto da fera

saúdo este resignado poeta
mártir de sua causa íntima
algumas facas moças poemas
versos e esperança íntima

saúdo também ao jovem poeta
que tem projetado uma vez
ver atrás da sombra reflexo
do objeto real ou do talvez

saúdo este desamparado poeta
indigno de fé esperança luz
peregrino que não descansa
tem dor e a dor não traduz

que tenham saúde vida longa
as mãos abertas ao destino
que esta rápida passagem captem
olho da fera mão do menino

 

 

 

A AVENTURA DE BUSCAR ONDE NÃO FOI BUSCADO


a aventura de buscar onde não foi buscado
a tentativa de afirmar em si o não afirmado
viu no meio da mata o que não se havia visto
o caminho a ser seguido onde nada era seguido

diante deste mar e deste branco a pergunta
o que renascerá do que está morto ou morre
debruçado sobre um mapa incerto e vago
linhas rascunhadas relevos abstratos geografia
definir dentro do espaço o espaço indefinido
aventura que se lança ao vago laço espacial
mar ar terra caminhos obstruídos e feras

mas aí está este objeto que não se alcança
próximo aos dedos aos olhos e não se alcança
partiremos agora ao novo mundo à floresta
entre o grande gesto e o leve toque há
esta vida próxima mas não aqui e nem lá

 

 

 

OUVI A HISTÓRIA DE ALGUÉM QUE QUERIA MORRER


ouvi a história de alguém que queria morrer
sabia do seu tempo um punhado de coisas
conjunto de fatos, compromissos e idéias
cansou delas, já não viu mais a graça
o que se faz num ano o outro esquece
mergulhando na memória este conjunto
que a carga do tempo os perderá

ouvi esta história de cansaço e perda
nas estrelas desenharam um enigma
alguns chamaram símbolo, outros acaso
vendo na incógnita a mão de deus
espremendo aos poucos seu corpo fraco
músculos e ossos que se abandonam
quebrando dura a expressão do adeus

 

 

 

O GÊNIO ARQUITETO DAS IMAGENS


o gênio arquiteto das imagens
ergueu a catedral em meio aos ímpios
quando ainda no altar, elogiaram
construindo colunas, desconfiaram
abóbada de ouro, detalhes mínimos
tão profuso e grandioso que
não houve um só fiel de coragem

atrás da barba descorada
fez últimos discursos e oferendas
para platéia de bancos e estátuas
gritou pela dor de estar só
vendo apenas na morte o recurso
dar acabamento à sua rocha barroca
santuário do amor e da viagem

 

 

 

BARBA DE ANTEONTEM CAMISA AMARROTADA


barba de anteontem camisa amarrotada
veio na tv dar adeus ao ano passado

soma dos anos em angústia alívio miséria
eis o terrível quadro daquele que espera

no passado onde houve o ingênuo o puro
construiu eldorado paraíso do mundo

e nós, diante hoje desta imagem
vemos o que não víamos nem suspeita

esta é a arte, esta visão do mundo
grandeza e miséria nós de mãos dadas

crime violência sangue e um beijo
na terra do sol eis a liturgia

adeus então até o próximo ano
no sonho além do fogo desta vida

 

 

 

NA UNIVERSIDADE ELE TEVE SUA VOZ


na universidade ele teve sua voz
soube impressionar a nós e a ele
mesmo, com o olhar de gato brilhante
alucinado num espaço que não o seu

teve um pai maior que todos
deu-lhe ouvidos e rezou o terço
pedindo graças e alguma inspiração
enquanto isso propagou a idéia
divulgou um tenso penteado
viu em cada canto um espelho curvo
cuja imagem era o pai, não ele

mas o tempo não dá tréguas
embaixo da terra outras idéias
brotaram de sementes antigas
dizendo: retornamos retornaremos

eis o mistério e é mistério da fé
que um só dia claro e silencioso
suspeitamos ver este tempo que passa
sem poder raspá-lo ou ver

agora é esta fome de todos
a crença de ontem hoje se dissipa
não há chão um laço qualquer
onde aquela densa voz resista
a dizer que não perdeu nem fracassou

 

 

 

BARBA DE ANTEONTEM CAMISA AMARROTADA


barba de anteontem camisa amarrotada
veio na tv dar adeus ao ano passado

soma dos anos em angústia alívio miséria
eis o terrível quadro daquele que espera

no passado onde houve o ingênuo o puro
construiu eldorado paraíso do mundo

e nós, diante hoje desta imagem
vemos o que não víamos nem suspeita

esta é a arte, esta visão do mundo
grandeza e miséria nós de mãos dadas

crime violência sangue e um beijo
na terra do sol eis a liturgia

adeus então até o próximo ano
no sonho além do fogo desta vida

 

 

 

UMA JAULA


uma jaula:
o trio dos tigres tristes
quer ser mas sempre falha

circo aberto:
sílaba interna da palavra
que ao picadeiro se espalha

 

 

 

ONTEM HOJE E SEMPRE


ontem hoje e sempre
sirva o crime de exemplo
sem formar nova seita

crimes e mistérios
guardar toda sujeira
destruir toda pista

nosso coração bate
um chá de cidreira
as mãos controlará

eu não fiz nada
deus é testemunha
cega é a justiça

um crime tão bom
rugidos de feras
não farão controlar

o mundo segue adiante
vá, raskolhnikov
a sibéria é teu lugar

 

 

 

O POETA SAIU DO NOSSO MUNDO


o poeta saiu do nosso mundo
foi contemplar só a si
retirou-se nas palavras
a indagar a indecisão

procurou o relativo
relacionar mais ao menos
esquecendo o que eram corpos
diária sangue dinheiro

vazou os olhos como santo
nada vê nada verá
poeta perdido do mundo

largando mãos e músculos
para pensar que pensa
não é mais menos ou muito

 

 

 

POR FAVOR, TENHA UM POUCO DE PENA


por favor, tenha um pouco de pena
de nossos pobres poemas
nosso rosto cansado vencido
as tentativas inglórias
milhões de quilômetros a pé
e nem tudo é percorrido

um pouco de pena, que custa
compaixão leve, sem compromisso
esta é nossa ruga de caipira
o tino incerto, o olho torto
depois de tudo o desajeito
um chão nosso e estrangeiro

além da pena, uma benção
às pequenas alegrias
à dor que a miséria medita
abençoe os sem memória
a mão de deus aos abatidos
e sobre aquele que ainda acredita

 

 

 

EIS O MOMENTO DE SUA GLÓRIA


eis o momento de sua glória
nada que não se arranje
o jeito do olhar, o cabelo
na boca palavras de jornal
moda das luzes e um corpo
transpirando além do belo

no entanto há um dia qualquer
ao cruzar duas ruas uma praça
suspeita de leve que justo o tempo
está além e aquém do que ela é
o que é feio o que é pobre
perde o disfarce, retorna
ao que nasce, cheia de defeitos
justo mais uma entre os outros

 

 

 

ENCARASTE O SEXO COM A BOCA


encaraste o sexo com a boca
encaraste o sexo com o cu
a haste do caralho tua rosa
tinhas as pernas de um gato
rondando cheirando detonando
cheia de grau olhavas de cima

escondias tudo, mostravas zero
atrás dos negros e das sombras
arregaçavas as dobras das rugas
mas não volúpia, nem tão gelo
foste após as curvas e retas
sem ir ao fim que começaste

 

 

 

A CABEÇA CHEIA DE CACHAÇA


a cabeça cheia de cachaça
meu pau fora da calça
tua boca a Gruta da Graça

olhos cerrados ao meio
mãos espalmadas de seda
meio litro é só um pouco

todo sonho quer um sono
o labirinto dos cabelos
vidros escuros e fumaça

benditos sejam os perdedores
de joelhos sobre a calçada
orai por nós os pecadores

amanhã é outra a luz
já se foi o que era
que será que tenha sido

 

 

 

O MUNDO É PLANO CLARO E PEQUENO


o mundo é plano claro e pequeno
mas não pode ser visto totalmente
haverá uma luneta curva
haverá um espelho cúbico
mas não se pode ver realmente
haverá lentes luminosas
além de multiplicar os olhos
para dividir reduzir abocanhar
mas não se vê aquilo que há
decâmetros hectômetros quilômetros
o mundo é pequeno claro e plano
fora disto estou aqui e você lá

 

 

 

NUNCA NO, NUNCA EM, NUNCA NA


nunca No, nunca Em, nunca Na
sempre Entre é o que há

nunca Vem, nunca Vê, nunca Está
sempre Foi, Talvez, Será

 

 

 

DESTACADA NUM HORIZONTE AZUL E CURVO


destacada num horizonte azul e curvo
réstia de terra vegetação pássaros
foi visto que além da esperança e fé
há um objeto real maciço secreto

eis a terra prometida o novo mundo
disse a si Alvar Nunes Cabeza de Vaca
sempre em frente, nada atrás de nós
veloz cortador da água do mar
em direção ao sul ao frio ao vento

quis morrer uma vez mas não morreu
tornará à morte dia por dia
após cada momento olhado no espelho
a imagem fraca um reflexo feio

o plano da conquista é muito maior
que a lâmina gelada, faca e espada
está preparada e pode supor

final do dia, sol sobre montanhas
dentro da mata atlântica indevassada
vê que o tempo não é constante
guarda no esquecimento sua glória
toda dor toda tristeza que sentiu
guarda no esquecimento este amor
que a luz não viu, sequer chegou

anos de preparação e de luta
eis esta vida, que muito significou
sofreu, e sofrerá esquecida

adelante, nada atrás e nada diante












DO RIO INTERMINÁVEL


PISO EXATO SOBRE TEU PASSO


piso exato sobre teu passo
sobre a marca gasta mas rígida
caminhando em um só caminho
que o teu passo fez e o meu refaz

futuro incerto, passado vago
ensaio de cada gesto e cada ato
reflexo do teu rosto imagem minha
pai filho neto espelho infindo

o mesmo texto o mesmo riso
projeto único e compartido
sem querer ter sido sou e somos
o tempo se derrama nos cobrindo

 

 

 

EM BUSCA DO MOMENTO ÚNICO


em busca do momento único
com um pouco do primeiro e do último
extrair o sensato claro e lúcido
do vago, revolto e confuso íntimo

momento ínfimo, que é tão curto
tem de vítima no seu estreito luto
o desejo lúdico e o símbolo ardente
sentir o que não é sendo o que não sente

em busca do momento último
onde seja o amor o seu ato único
onde vejo sua mão e seu olho limpo
sua voz de pai e mãe dizendo filho

 

 

 

GUARDOU PARA DIZER NUM MOMENTO E NÃO DISSE


guardou para dizer num momento e não disse
o momento passou depois dele veio outro
forças vontades um desejo e não disse
olhou do carro um olhar digno e humilde
chamando a si a palavra, mas não disse
a trava o gesto inconcluso e o âmbito
ter preparado a frase simples que não disse
potência de ser algo e nisto a diferença
mesmo que na diferença se diminuísse
projeto de vida e cada dia a prova inversa
do que me teria dito e justo ali não disse

 

 

 

ELE TEVE SUA ÉPOCA DE BELO


ele teve sua época de belo
passou a famosa ponte pênsil
adquiriu um vasto horizonte
hóspede no clássico hotel

os melhores sapatos e ternos
telefonemas interurbanos
nos caminhos do sul pôde ver
o que os olhos do poeta vê
e no colo da família
sentiu o braço seguro
mas a vida e o mar profundo
souberam aplicar o castigo
o que era duro o que era pena
a obscurecer o largo
olhar azul contra o mundo

passada a época do belo
chegada a era do inacabado
acende o fogo iluminado
a dar luz a cada dia
cada minuto cada segundo
o belo nunca é passado
mas o sonho borrado e turvo
numa noite do futuro

 

 

 

O QUE ESPERAVA VER ATRÁS DA PORTA


o que esperava ver atrás da porta
rompendo com sua luz de ouro
as portas do coração e do olho

a passagem na rua a mulher
que o desejo formulou e moldou
como o que era e o que será

dualidade da glória que enche
e esvazia, perfeita origem
da esperança luz e sonho

memória intacta, quadro imóvel
objeto, fato que a mão tocou
num passado perdido e vago

esperava o vento quente e cheio
cavalo nervoso entre fé e dor
batendo na porta dizendo: aqui

 

 

 

NASCE TÃO FRACO, MAS JÁ MORRE


nasce tão fraco, mas já morre
cedo, ainda de manhã, vai-se
não houve um olhar um sonho
cotidiano de esperança e surpresa
promessa que acende e apaga
nada, tão fraco, luz pouca
é o que veio só para ver
e mergulhar na escuridão
sem memória do que não viu

pensou que sabia tudo da vida
gestos atos e um dia de fúria
mas a vida não se importa com nada
sua calda grossa escorrendo pela boca
que nada tapa e o gosto imprime
nem é vida espaço ou vontade
seja o tempo em seu resto que passa

 

 

 

FOI UMA NOITE CHEIA DE SONHOS


foi uma noite cheia de sonhos
pois havia a beira do abismo
lá onde não há asas sentamos
para descobrir o que temos no umbigo
eu não sou você, nem ele, ninguém
resto de esperança que não digo
não vamos? então vou só
descer é tão fácil que não ligo

 

 

 

COM A INSACIÁVEL FORÇA DA TEMPESTADE


com a insaciável força da tempestade
repentina também, e inesperada
os olhos no objeto do desejo saltam

seja a longínqua tarde de verão
as sombras lentas da flamboyant
o golpe da pantera tornando a esquina

seja um nome perdido no vento
a surpresa deste olhar que volta
e castiga meu corpo na faca do tempo

 

 

 

É O CAMPO DE ARROZ


é o campo de arroz, a chuva e o gesto preocupado
é a tempestade de verão escondida atrás da casa
é o passeio com o carro saído do conserto, mas que
não ficou bom
é a recomendação e a mochila arrumada para a aula
é a primeira foto do sexo, no pátio do colégio e
fora dele
é a surpresa de uma manhã em Londrina e a ausência
de surpresa na manhã seguinte
é o ir e vir pela rua deserta ladeada de ipês
é a carne o fogo e a conversa franca num domingo
nublado
é a esperança da glória numa construção de fracassos,
e estes mesmos fracassos numa construção de glória
é o gesto que diversas vezes ela conteve, e o mesmo
gesto contido que agora não aparece
é o conjunto de negócios, dos distantes e perdidos
até os recentes, num só negócio antigo mas
agora novo
é a frase jamais dita mas que em sua face está escrita
é aquele sonho que ele abandonou e retomou tantas
vezes
é a vontade de ver seu pai e sua mãe e não haver mais
pai e mãe para ser visto
é um projeto escrito no papel que depois verificou
ser um equívoco
é este equívoco, e depois não houve clareza para
que fosse desfeito
é a viagem por um planalto coberto de gelo indo a
Curitiba
é a neve em uma manhã de julho, e agora é julho e
amanhã também
é a sucessão de esquecimentos e lembranças, e a mesma
sucessão em seu retorno
é o ensino de um olhar simples que olha a si e torna
a olhar e nisto se fundamenta

 

 

 

ELA RACIOCINOU SOBRE DUAS COISAS


ela raciocinou sobre duas coisas
a felicidade que teria ainda
a duração do tempo seu e meu
atender longos telefonemas
atrás das frases descobrir o quê

teve medo, está escrito ali
nestes cabelos amarelos
olhos amedrontados querem
desmontar minha rigidez frágil
batendo em mim com dois punhos

leve toque, mão sobre mão
diz que em nada acredita mais
e que o dia nasce abatido
rogai por nós anjos caídos
pelo de ontem e o de amanhã

 

 

 

SABE DAR-SE SEM RESERVAS


sabe dar-se sem reservas
mesmo no interior da discórdia
sabe dar-se sem reserva

aquietar-se ante o choro
manter o olho do humilde
deitar-se abaixo do sob

palpitar-se onde não palpita
crer-se na fenda da dúvida
talvez do amor ser a origem

 

 

 

NÃO SABE NENHUM SEGREDO


não sabe nenhum segredo
não compartilha nenhuma letra
comove-se com qualquer coisa
ignora datas e horas

um a um já perdeu tudo
mergulhou o orgulho no barro
o que sabe é pouco mas sabe

ninguém lhe diz nenhuma coisa
ela só quer chegar ao fim
só quer liquidar o assunto

 

 

 

INÚMEROS AGORA DORMEM


inúmeros agora dormem
inundados de escuridão
do negro horizontal
quilômetros ao lado
viajar de ônibus, carro
vôo do rio a tóquio
enquanto problemas surgem
outros se dissipam

leve quarto de hotel
tão pouco, quase nada
dormir e perder o sono
desejar para não ter
mergulhos de fracasso
expectativas em nada
vagar atrás do milhar
e os décimos recolher

décimos centésimos
milésimos mínimos
descer ainda mais baixo
sinal de que não cai

 

 

 

TODOS TÊM ALGO PARA MOSTRAR


todos têm algo para mostrar
algum pedaço de beleza
um resto de esperança

depois de tudo perdido
depois de tudo passado
acha-se qualquer coisa ali

não é uma aprovação
ou a frase com o sim
é uma raspa, um canto

sempre olhar para o depois
atrás da árvore, do muro
virando a esquina, o ponto

começar assim que acabou
lembrando de casa, ver
e mesmo não vendo, rever

 

 

 

NESTE CAMPO QUEM ARA É O PÃO


neste campo quem ara é o pão
minha cama é vasta e deserta
meus olhos rolaram nas mãos

estranho sonho de temporada
divisa incompleta e turva
ao fundo a imagem borrada
quem ara neste campo é o pão

cresça o trigo e a cevada
abasteça de pó e alimente
este escuro chão do nada
cujos fatos são do agora
e suposição depois da aurora

 

 

 

DESCOBRI APÓS OS TRINTA ANOS


descobri após os trinta anos
não haver vocação ou talento
a face do fracasso é presente
na incontornável força do tempo
? onde guardar toda a potência
esconder guardar afastar sumir
pois cultivou-se dia a dia, sorriu
acreditou que algo realizaria

olhando ao lado resta a literatura
solitária próxima, eis a dor
mas a um poema que nada tem
senão prosa, palavras igualem
aspirem ao labirinto, como ele
o que tinha e guardar não pôde
perdido no vasto labirinto
caminhando pelo um e pelo todo

 

 

 

TUDO O QUE HÁ DE BOM NUM DIA


tudo o que há de bom num dia
mesmo que pra mim não sobre
após um vento, depois do sol
qualquer ramo ou aragem fria
sopre o tempo sobre mim

todo amor que houver nesta vida
mesmo uma curva ou um nó
qualquer que seja o desejo
o deserto de um verso longo
soprando letras como pó

tudo que houver de bom nesta vida
mesmo que dure um pouco só
qualquer pouquinho de nada
oração de um poeta velho
no vácuo do fim da estrada

 

 

 

TANTA GRANDEZA TANTA MISÉRIA


tanta grandeza tanta miséria
espalmada junto ao olho
momento lúcido e claro
ver o que sou serei era

toda grandeza toda miséria
expressão de um só momento
tempo único e solitário
dentro da boca da fera

 

 

 

NOSSA DECADÊNCIA COMEÇOU


nossa decadência começou
mais cedo que o costume
não olhamos à frente ou atrás
esquecendo nosso lado
já não há Causa Absoluta
perdeu-se o Fim Sem Final
nosso símbolo é a dor
que dói em outro lugar
nosso estudo é o pó
nosso diário é o círculo
ninguém aqui tem coragem
vontade desejo sedução
onde houve alegria, secou
nasceu uma fonte salgada
que para o mar não deu
melhor é calar a boca
matar o que não morreu

 

 

 

APRENDI A PERMITIR TODOS OS ERROS


aprendi a permitir todos os erros
infelizmente exceto os meus
estou tentando as curvas do destino
a vaga onde o acerto escondeu

comigo tenho a justa imagem
humilde homem que pouco sabe
conhecer é errar e cair
o chão do sábio é o nada

cruzamos os mesmos caminhos
mas ao dono não se vence

combatemos o imbatível
navegador da eternidade

luta triste e sem glória
a nós o tempo desconhece

 

 

 

! COMO JÁ ESTAMOS PÁLIDOS E PERDIDOS

! como já estamos pálidos e perdidos
resta-me tua voz fraca ao telefone
que acende o ouro a prata da memória

perguntas problemas questões um chicote
a surrar o perverso tempo as criações
personagens de começo e fim abandonados
ver um mundo diferente e em nada marcá-lo

! como vemos o mundo de diferentes maneiras
os problemas que temos de resolver amanhã
os de ontem mês passado dez anos atrás
meus olhos vão se gastando os teus também

imagens do campo arrozais café cavalos
guarde em sua lembrança tempo eterno
que a nós é dado a sombra e a passagem

 

 

 

PENSEI NA VIDA QUE DEUS ME DEU


pensei na vida que deus me deu
talvez tenha se dignado a dar atenção
ao que é simples e banal no universo
uma folha ao vento, o ramo dentro d'água
o princípio da chuva, o frio vindo do sul

pensei nesta vida que também é o ramo
descansando ao tempo e pensando em si
ele me deu e ele estende a mão
apanha o solto, arremessa ao vento
não é tão belo o que já não há

 

 

 

SEJA ESTE DESERTO IMPLANTADO NO OLHO


seja este deserto implantado no olho
o destino de minha sede e minha fome
o esforço de dar sentido ao que não tem
o olho atravessado pelo vento e pelo sol

seja esta dor seca o fim de tudo
o arranjo das palavras no labirinto
traçado em linhas escuras e fugitivas
o dia que levantarei para ver a neve

seja o final da onda o final do ano
que vem e bate e não faz esquecer
o dia inteiro onde montei a figura
do claro abraço de um amor seguro

 

 

 

ISOLADO NESTE TEMPLO FRIO E ÚMIDO


isolado neste templo frio e úmido
a cuidar desta pequena chama que vibra
pendente de um galho frágil e retorcido
pedindo a si um sopro a mais de vida

ali, em meio ao templo, miúda
exalando esta névoa fosca
que invade aos poucos cada canto
pedindo olhos, mãos, boca

eu sou um poeta, e sobre minha tumba
repousará também esta fumaça
como a foto de uma família distante
gravado nas faces o tempo que passa

o velho tema da encruzilhada
mais velho ainda, a tarde rubra
reunindo em si a saudade e os planos
de tempos loucos e amores lúbricos

vem mais esta chama ao nosso mundo
a tentar também a ampla imagem
reunir lembranças, explicar o emblema
que segue em nosso peito a eterna viagem

 

 

 

NÃO ERA NADA E PERGUNTOU


não era nada e perguntou
ao espelho, quem sou
reflexo do reflexo sobre
lâmina da água ou gelo
aventura e glória da conquista
ao que desconhece e não conheço

falso objeto matéria dura
está onde não está e não é
ocupa no espaço dois lugares
travessia do atlântico rumo
ao áspero árduo e efêmero
jogo de remos e palavras

ramos da relva espinho mata
caminho do escuro ao vento
perguntou ao espelho quem era
arqueado sobre a imagem vaga
vontade desejo glória alguém
metade meio rastro nada

 

 

 

DEDICO A UMA GRANDE IMAGEM DO MUNDO


dedico a uma grande imagem do mundo
visto dos olhos de uma criança
ao desespero indômito de mais um dia
vencido aos poucos e aos gritos

dedico aos fatos que se interpõem
a este pensamento sistemático e gratuito
ao claro desejo da carne
suspenso no tempo, mas invicto

dedico aos raros momentos de bêbado
cavalgando entre sorrisos e escritos
delícias de criança que a tudo reduz
ou aumenta, como a lenda e o mito

dedico à minha dúbia visão do mundo
visto detrás de cortinas e vidros
que a tudo ansia, esta mão doce
vagando no ar nesta busca aflita

dedico ao chão, ao assoalho, às almofadas
aos tapetes pobres que a arte imita
ao cansaço da luta, o amor da tarde
que deixou um rastro, mas era finito

 

 

 

CORRERÁ O RIO INTERMINÁVEL

correrá o rio interminável
e na colheita de cada dia
haverá um broto alheio e estranho
que guardaremos na memória feito o momento fugaz
de um gesto, um lance
um íntimo
e tu dirás: é o ponto
de tua anônima alegria.

 

 

 

 

 


Mauro Faccioni Filho. Nació en Maringá, Brasil, en 1962. Editó varias revistas de arte y cultura en la década del '80, entre ellas "Oitenta & Quatro". Es ingeniero electrónico y director cinematográfico, autor del mediometraje "Bruxas", entre otros. Además de "Helenos" publicó los libros "O grande monólogo de Madrija" y "Olhos Cegos", los dos por Editorial Semprelo. Es co-editor de "Babel" Revista de poesía, traducción y crítica.

 

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