Mauro Faccioni Filho

 

 

 

Dualidade da luta

 


                  omelete entre os escombros
                                                              cacos de tijolo pelo chão

                  a vida tem sentido quando acaba
                                              sobre o fogo rola o corpo distraído

                  telhas saltam  -  bombas zunem
                                              e nos une o silêncio entre os estalos

                 papéis rasgados  -  assinaturas antigas
                                            olhos azuis vagando entre os vapores

                 do chá de menta  -  ou camomila
                                                         frio das cinco horas da tarde

                 e seu convite de amor entre os estrondos
                                               facas de ardor  -  colheres de açúcar

                 sapatos raspam a areia seca
                                                      o fio da lâmina na chaga aberta

                 corisco que roda em câmera lenta
                                                 e um céu de chumbo nos acoberta

                 folhas pálidas  -  rajadas de vento
                                                       vacilam entre as metralhadoras

                 cintilando os fogos de artifício
                                                e cobertas de pêlo abafam os ruídos

                 que têm sentido  -  fora e dentro
                                                    sobre os tecidos  -  dentro e fora

                 gotejando na boca dos pedidos
                                                         que um último perdão implora


***         

Dualidad de la lucha

(Traducido por Romina E. Freschi)



                  omelette entre los escombros
                                                        cachos de azulejo por el suelo

                  la vida tiene sentido cuando acaba
                                        sobre el fuego rueda un cuerpo distraído

                  tejas saltan - bombas zumban
                                          y nos une el silencio entre los estallidos

                  papeles rasgados - asignaturas antiguas
                                            ojos azules vagando entre los vapores

                  del té de menta - o de camomila
                                                  frio de las cinco horas de la tarde

                  y su convite de amor entre los estruendos
                                         cuchillas de ardor - coladores de azúcar

                 zapatos raspan la arena seca
                                              el hilo de la lámina en la llaga abierta

                 centella que rueda en cámara lenta
                                              y un cielo de plomo nos da cubierta

                 hojas pálidas - rayadas de viento
                                                      vacilan entre las ametralladoras

                 escintilando los fuegos de artificio
                                             y cubiertas de pelo aplacan los ruidos

                 que tienen sentido - fuera y adentro
                                                  sobre los tejidos - dentro y afuera

                 goteando en la boca de los pedidos
                                                        que un último perdón implora
 


***

Primeiro princípio da dualidade



         sentei para escrever um poema e escrevi outro
                              sob os lençóis se mexeram seus pés nus

         num livro - entre duas folhas - faltou a palavra
                        que na manhã seguinte estampou os jornais

         a gota de sêmen - a peregrina lenta
                                   enquanto aviões cruzaram o céu azul

         a mesma rua que guardava em uma lembrança
                    surgiu numa manhã - bem longe da sua origem

         e as placas estavam nos mesmos lugares marcados
                             mas vieram escritas numa língua estranha

         sofrendo pela avalanche de perguntas sem respostas
                                 você veio tocar-me a nuca sussurrando

         e o que começou de um jeito acabou de outro
                            queimando verdades e véus e se apagando


***         

Primer principio de dualidad

(Traducido por Romina E. Freschi)

          me senté para escribir un poema y escribí otro
                      sobre los lienzos se mezclaban sus pies desnudos

          en un libro - entre dos hojas - faltó una palabra
                           que a la mañana siguiente estampó los diarios

          la gota de semen - la peregrina lenta
                                      mientras aviones cruzaban el cielo azul

          la misma calle que guardaba en una remembranza
                           surgió en una mañana - bien lejos de su origen

          y las placas estaban en los mismos lugares marcados
                                      pero aparecieron en una lengua extraña

          sufriendo por la avalancha de preguntas sin respuestas
                                    usted me vio tocarme la nuca susurrando

          y lo que comenzó de un modo acabó de otro
                                   quemando verdades y velos y apagándose
 

***

Segundo princípio da dualidade



            o menino desenhou uma placa mostrando
                                                  que tudo em volta era proibido

            sorrisos arrodearam a sala e até
                                                as luzes piscaram sob o temporal

            alguns tentaram desenhar o brilho
                                   que nos olhto florearam sob a noite escura

            e atravessando os dias e os anos
                                                  uma compreensão tomou forma

            como numa prova onde não há fim
                                                 nem início- e estampado em mim

            permanece seu pequeno segredo - contado
                                                numa densa madrugada de insônia


***         

Segundo principio de dualidad

(Traducido por Romina E. Freschi)


                  el niño dibujó una placa mostrando
                                                          que todo al revés era prohibido

                  sonrisas rodeaban la sala y hasta
                                                las luces parpadeaban bajo el temporal

                  algunos intentaban dibujar el brillo
                                  que nuestros ojos florecían bajo la noche oscura

                  y atravesando los días y los años
                                                           una comprensión tomó forma

                  como en una prueba donde no hay fin
                                                             ni inicio - y estampado en mi

                  permanece su pequeño secreto - contado
                                                en una densa madrugada de insomnio

***


Primeiro teorema da entropía

 

vínhamos pelas estradas do sul

os raios iluminando o leste

o negro da noite manso e quieto

paramos o carro na beira

para olhar no telescópio

astros distantes vagando calmos

em velocidades alucinantes

uns pra longe dos outros

e pequenos corpos sem luz

sempre atrás e faltando um pouco

um ponto no passado, um início longe

de onde eles fogem como loucos

até um dia retornar, de joelhos

trazendo nas mãos as últimas luzes

lacradas pelo sétimo selo

uns meninos distraídos nas montanhas

desciam pelas pedras

cantando a canção da infância

e nas mãos de um o pequeno pássaro

fecha os olhos e descansa

no microscópio os pontos se agitam

e os garotos olham sem compreender

as minúsculas vidas na lâmina

e a imensa lua fria e insone

vibrando de prazer como em chamas

então densas nuvens nos conduzem

para o silêncio de nossas questões

e seus olhos encontram os meus

faiscando nesse silêncio

implorando a mim algo de meu

algo que esteja além desta batalha

algo que esteja além deste rangido

que vença o tempo uma vez só

mas trêmulos nossos corpos não se tocam

nem seios, nem lábios, nem mesmo a voz

 

***

 

Primer teorema de la entropía

(Traducido por Daniel Muxica)

 

veníamos por las calles del sur

los rayos iluminando al este

lo negro de la noche tranquillo e quieto

paramos el auto al costado

para mirar por el telescopio

astros distantes vagando calmos

a velocidades alucinantes

unos a gran distancias de los outros

pequeños cuerpos sin luz

siempre atrás y muriendo un poco

un punto en el pasado, un inicio distante

de donde ellos arrebatados como locos

retornan un día, de rodillas

trayendo en las manos las últimas luces

lacradas por el séptimo sello

unos chicos distraídos en las montañas

descienden por las piedras

cantando una canción de infancia

y en las manos de uno el pequeño pájaro

fija los ojos y descansa

en el microscópio los puntos se agitam

y los muchachos miran sin comprender

las minúsculas vidas de la lámina

y la inmensa luna fría y insonme

vibrando de placer como en llamas

en tanto densas nubens nos conducen

al silencio de nuestras cosas

y sus ojos encuentram los míos

centelleando en ese silencio

implorando a mi algo de mi

algo que está más allá de esta batalla

algo que está más allá de este crujido

que vence al tiempo una sola vez

pero trémulos nuestros cuerpos no se tocan

ni los senos, ni los lábios, ni la voz

***

 

Segundo teorema da entropía

 

resistindo, resistindo

nas pedras as ondas batem

resistindo, resistindo

venha, os braços estão suspensos

as espigas de trigo deitam

aos rudes carinhos do vento

seus pés deixaram as marcas

na areia banhada de espuma

venha, não resisto mais

o músculo cede, o sol queima

e enquanto giram os olhos sob a órbita

vagam secos os pensamentos

gravidade, as leis da atração

a força magnética nos dirige

e sob o rastro da luz que passa

se desencontram nossos olhares

***

 

Segundo teorema de la entropía

(Traducido por Daniel Muxica)

resistiendo, resistiendo

en las piedras las olas golpean

resistiendo, resistiendo

ven, los brazos están suspensos

las espigas de trigo se inclinan

a los rudos cariños del viento

sus pies dejaran nas marcas

en la arena bañada de espuma

ven, no resisto más

el músculo cede, el sol quema

y en cuanto giran los ojos en su órbita

vagan secos los pensamientos

la gravedad, las leyes de atracción

la fuerza magnética nos dirige

y bajo el rastro de luz que pasa

se desencuentran nuestras miradas

***

 

Teorema do principio da incerteza

 

não entendo para quê estamos vivendo

e de manhã abrir os olhos para o escuro

seguir andando a construir os fatos

dar as mãos, olhar nos olhos, tragar

e para quê estamos atentos às árvores

que jogam as folhas fora e depois renascem

sob a jornada do dia nos concentramos

irresolutamente a entregar o que nos foi dado

para enfim alcançar a noite e reencontrar

aquele símbolo da existência chamado amor

e para quê este trajeto cíclico e incontornável

se a cada dia ganhamos algo e perdemos outro

juntando na memória o que se dá por vida

como um ramo solto pelo campo

uma ave tonta, um animal ferido

vagando desde o nada e para o nada

e se ( e se! ) algo mais houvesse, uma surpresa

um contraponto que já não compreendemos

um destaque, um para quê inexplicável,

qual é, mesmo assim, esse mar em que boiamos

com os olhos pregados no céu azul ?

***

 

Teorema del principio de la incerteza

(Traducido por Daniel Muxica)

no entiendo para qué estamos viviendo

y de mañana abrir los ojos hacia lo oscuro

seguimos andando hasta construir los hechos

dar las manos, mirar nuestros ojos, tragar

y para qué estamos atentos a los árboles

que pierdem las hojas y después renacen

sobre la jornada del día nos concentramos

irresolutamente hasta entregar lo que nos fue dado

para al fin alcanzar la noche y reencontrar

aquel símbolo de la existencia llamado amor

y para qué este ajetreo cíclico y incontrolable

si cada día ganamos algo y lo perdemos outro

juntando en la memoria lo que se da por vida

como un ramo suelto por el campo

un ave tonta, un animal herido

que vaga desde la nada y para la nada

y si (¡y si!) algo más hubiese, una sorpresa

un contrapunto que ya no comprendemos

um sobresalir, un para quê inexplicable,

¿cuál es, así mismo, ese mar en que boyamos

con los ojos clavados en el cielo azul?

***

 

amanhece junto aos rumores dos pássaros

 

amanhece junto aos rumores dos pássaros

o campo aberto está à espera dos filhos

prendo às pernas minha sandália de couro

com o elmo de bronze expondo seu brilho

última olhada a este espelho turvo

lâmina fria em um lago escuro

preparo punhal espada e escudo

expectativa das dores de um golpe duro

ouvi no sonho a voz da justiça

mas ela não tinha mãos corpo ou face

talvez fosse meu medo pedindo socorro

alimentando de vida o que só é disfarce

meus irmãos chamam, e vamos juntos

aos que sobrarem da luta, cobrir de glória

aos outros, descer aos campos do Hades

que a tudo engole e aos sonhos devora

***

 

Amanece junto a los rumores de los pájaros

(Traducido por Reynaldo Jiménez.)

 

amanece junto a los rumores de los pájaros

el campo abierto está a la espera de los hijos

prendo a las piernas mi sandalia de cuero

con el yelmo de bronce exponiendo su brillo

última ojeada a este espejo turbado

hoja fría en un lago oscuro

preparo puñal espada y escudo

expectativa de los dolores de un golpe duro

oí en el sueño la voz de la justicia

pero ella no tenía manos cuerpo cara

tal vez fuese mi miedo pidiendo ayuda

alimentando de vida lo que sólo es disfraz

mis hermanos llaman, y vamos juntos

a los que superaron la lucha, cubrir de gloria

a los otros, descender a los campos del Hades

que todo traga y a los sueños devora

***

 

olhei para as estrelas

 

tenho medo, tanto medo, olhei para as estrelas

a luz viaja pelo espaço sem um só pensamento

pequenos ruídos do mar, suas profundezas

logo virá a aurora com seus róseos dedos

virá para repartir o tempo em gomos

nossa histeria, ou risos, ou pequenas alegrias

quero ver para trás e para trás não olhar

a memória mais curta é também mais leve

que venham as ondas apagar imagens

desenhos turvos, a expressão incompleta

que passe o amanhã e passe o depois também

passem os nomes com o vento do deserto

***

 

Miré hacia las estrellas

(Traducido por Reynaldo Jiménez.)

 

tengo miedo, tanto miedo, miré hacia las estrellas

la luz viaja por el espacio sin un sólo pensamiento

pequeños ruidos del mar, sus profundidades

luego vendrá la aurora con sus rosáceos dedos

vendrá para repartir el tiempo en brotes

nuestra histeria, o risas, o pequeñas alegrías

quiero ver para atrás y para atrás no mirar

la memoria más curta es también más leve

que vengan las ondas a apagar imágenes

dibujos turbios, la expresión incompleta

que pase el mañana y pase el después también

pasen los nombres con el viento del desierto

***

 

 

vendo o melhor que tenho

 

vendo o melhor que tenho

todos os dias, como o sol

arrancando do escuro este lampejo

então por que me sinto só?

neste mar de braços e pernas

rodas do mundo num pouco de carne

vendo o melhor, e nunca darei

objetos desta vitrine viva

que ao leve toque renunciarei

vendo barato, é quase nada

poucas palavras, poucos gestos

que ao vento da manhã serão passado

vendo mesmo estas lembranças

das músicas da juventude

densos doces que já comi

vendo na madrugada sem ver valor

com a fúria de mais um fim

e com a suave dor de mais um sim

***

 

Vendo lo mejor que tengo

(Traducido por Reynaldo Jiménez.)

vendo lo mejor que tengo

todos los dias, como el sol

arrancando de lo oscuro este centelleo

¿entonces por qué me siento solo?

en este mar de brazos y piernas

ruedas del mundo en un poco de carne

vendo lo mejor, y nunca daré

objetos de esta vitrina viva

que al leve toque renunciaré

vendo barato, y casi nada

pocas palabras, pocos gestos

que al viento de la mañana serán pasado

vendo incluso estas remembranzas

de las músicas de la juventud

densos dulces que ya comí

vendo en la madrugada sin ver valor

con la furia de otro fin

y con el suave dolor de otro sí

***

 

em busca do momento único

 

em busca do momento único

com um pouco do primeiro e do último

extrair o sensato claro e lúcido

do vago, revolto e confuso íntimo

momento ínfimo, que é tão curto

tem de vítima no seu estreito luto

o desejo lúdico e o símbolo ardente

sentir o que não é sendo o que não sente

em busca do momento último

onde seja o amor o seu ato único

onde vejo sua mão e seu olho limpo

sua voz de pai e mãe dizendo filho

***

 

En busca del momento único

(Traducido por Reynaldo Jiménez.)

 

en busca del momento único

con un poco de lo primero y de lo último

extraer lo sensato claro y lúcido

de lo vago, revuelto y confuso íntimo

momento ínfimo, que es tan corto

tiene de víctima en su estrecho luto

el deseo lúdico y el símbolo ardiente

sentir lo que no es siendo lo que no siente

en busca del momento último

donde sea el amor su acto único

donde veo su mano y su ojo limpio

su voz de padre y madre diciendo hijo


***


Mauro Faccioni Filho nació en Maringá, Brasil, en 1962. Es co-editor de la revista Babel.
Los poemas que aquí se leen forman parte del libro inédito Duplo Duble.



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